Relatos

Nascimento do Miguel - Lucila Araújo e Alex Albertoni

Relato de um quase parto Domiciliar- Cesárea Intraparto (DCP)

*Esse relato acompanha um vídeo de imagens retratando alguns momentos dessa experiência
transcendental. Fiz questão de realizar esse vídeo porque, em primeiro lugar: Eu mereço. Meu filho, meu marido e minha equipe merecem; em segundo lugar porque preciso treinar meu cérebro a lembrar e absorver tudo que foi bom.

*Quero agradecer à Giovanna Fragoso por seu olhar confiante; à Suzana Coca por seu riso
permanente; à Andrea Gouveia pelo entusiasmo; à Samara Barth pela entrega; à Aninha Laura
Tobias pela irmandade: a todas pelo carinho, dedicação e qualidade no profissionalismo. Mas meu
agradecimento especial é acima de tudo a Deus, ao meu filho, a mim e ao meu marido, que me
apoiou incondicionalmente e embarcou com todo amor nessa jornada.

Não sabia exatamente como fazer esse relato por isso levei um tempo pra isso. Será que há
interesse por uma história de ?Quase consegui??

Não tem como relatar sem que seja um depoimento longo (uma saga rs). As pessoas lerão até o
fim? Acho que a minha mãe será a única que lerá kkk... Na era das mensagens rápidas, dos 140
caracteres, alguém tem paciência para uma leitura como essa? rs. Enfim, preciso usar essa
ferramenta de compartilhamento para ajudar a acomodar meus sentimentos. Faz parte do processo de transformação e cura.

Primeiramente, pra poder descrever o nascimento do Miguel (jan/2015) preciso fazer um breve
histórico do nascimento da Marina (mar/2012)...

NASCIMENTO DA MARINA
Eu tinha 31 anos; 38 semanas de gestação de baixo risco; Pré-natal e parto sendo pagos
particularmente por falta de plano de saúde e medo de precisar do serviço público de saúde.
Obstetra ?de acordo? com meu desejo de ter um parto normal (só que não).

Sempre tive medo do parto. Não da dor em si, mas de alguma possível complicação. Achava o parto algo muito complexo, no qual muita coisa pode acontecer. Embora tenha nascido de uma cesárea eletiva e de conviver com 90% de minhas amigas e família terem feito cesárea, tinha pavor dessa cirurgia.

Não me informei nem me preparei para tal momento. A gente confia no médico e pronto. A única vez que joguei no Google ?parto normal ? vídeo?, apareceu em um dos links um parto domiciliar e a
minha curiosidade me fez assistir aquele vídeo até o fim. (Era o parto da Sabrina ? nascimento do
Lucas, ficou famoso e aparece até no documentário ?O Renascimento do Parto?). Eu simplesmente me encantei. Me apaixonei por aquela forma de receber um bebê; queria aquilo pra mim, mas isso era uma realidade bem distante da minha pequena cidade interiorana e da minha realidade de vida.

Me apeguei ao que era possível pra mim (parto normal hospitalar convencional) e vamos lá.
Dia 29/mar/2012, 3 horas de bolsa rota, após um toque a médica indica cesárea: ?Tem 1 cm de
dilatação, nem adianta colocar no sorinho que vai sofrer à toa e no fim vai ter que abrir mesmo,
então vamos abrir... centro cirúrgico agora!?

Tento me libertar do sentimento de culpa por ter sido tão inocente em tempos de acesso à
informação. Mas não imaginei que poderia haver tanta leviandade em tudo isso. (sabe de nada
inocente rs)

Como é um breve relato, vou pular todos os detalhes só deixando enfatizado meu sentimento de
frustração, que depois fui entender que é um sentimento vitimizado, por ter um parto roubado, por ter sido engolida pelo sistema.

NASCIMENTO DO MIGUEL

Eu estava com 33 anos e planejei engravidar do segundo filho. Comecei a pagar o plano de saúde
com antecedência e calculei para esperar até que a carência do parto fosse coberta. Cobriu a
carência ok, hora de tirar o adesivo anticoncepcional.

No mesmo mês já veio o positivo e com ele as questões de parto começaram a aparecer na minha
vida e eu as compartilhava com meu marido.

A pediatra da minha filha (Dra. Andréa) foi a fonte disparadora para que eu adentrasse esse mundo, que era desconhecido mas que já me fascinava. Ela tinha acabado de inaugurar a primeira clínica com Salas de Parto da região. Ela sabia do meu histórico de cesárea desnecessária anterior e meu sentimento de frustração diante daquilo. Foi então que me emprestou o documentário ?O Renascimento do Parto? e me passou a agenda do AGE (Grupo de apoio à gestante de Itapetininga). Era um grupo novo, que estava ganhando força pela seriedade de informações trazidas e compartilhadas, contando com profissionais competentes.

Eu e meu marido assistimos o documentário e começamos a participar dos encontros no AGE.
Foi um mergulho sem volta ao mundo do conhecimento. Tantas questões sendo esclarecidas, tantos mitos sendo derrubados, informações, buscas, preenchimentos. Um estado interminável de
equilíbrio/ desequilíbrio / equilíbrio novamente.

Eu paria todos os dias da minha gravidez lendo todos aqueles relatos, artigos acadêmicos,
evidências científicas, vídeos, leis...até que, na 32ª semana de gestação findaram TODAS as
minhas dúvidas e inseguranças. Então, eu e meu marido decidimos que teríamos nosso filho na
segurança do santuário do nosso lar. Nenhuma Casa de Parto, por mais aconchegante e segura que fosse, substituiria a sensação de trazer meu filho ao mundo dentro do nosso próprio lar.

Equipe humanizada contratada, agora era ter peito pra bancar nossa escolha, sustentar nossas
convicções. Apoiarmos um ao outro para correr atrás do nosso parto sonhado, do nosso VBAC
(parto vaginal após cesárea). Traçar o melhor caminho para lidar com a família (que no caso,
preferimos omitir), com questões financeiras, com o plano de parto.

Estávamos tão em paz, tão seguros. ?Tudo vai dar certo?. Sonhamos tanto com aquele momento.
Meu marido fazia questão de pegar o Miguel quando ele escorregasse pelas minhas pernas.
Nos dedicamos inteiramente para a gestação e para o grande dia.

Além do preparo psicológico e emocional, também fiz drenagem, Pilates, exercícios para fortalecer o assoalho pélvico com um aparelho chamado Epi-no. Diga-se de passagem, era um saco manter a disciplina para fazer o tal do epi-no. Pratiquei durante as últimas 5 semanas diariamente e o marido também participava ajudando a segurar a pressão do balão. Tinha certeza que o Miguel iria passar pelo períneo e o mesmo permaneceria íntegro. Corpo íntegro, alma íntegra, protagonista do meu parto, sendo respeitada e trazendo meu filho ao mundo com amor e respeito.

Eu fiz o pré-natal com a mesma obstetra da gravidez anterior. Não confiava nela (é óbvio) mas me
encontrava sem alternativa para mudar, pois se 98% dos partos do meu convênio são cesáreas,
para que médico deveria correr?

Na verdade, hoje percebo que ainda não estava preparada pra bancar mudar de médico naquela
situação, mas isso ocorreu quando o empoderamento ficou absoluto.

Na 38ª semana de gestação a obstetra falou que me faria um toque na próxima consulta. Era
semana do natal e ela iria viajar no dia seguinte após a minha consulta e só voltaria na semana
seguinte. Nesse momento todo o meu conhecimento e segurança expressou-se com força total.

Faltei à consulta e abandonei aquela profissional. Estava apartando de mim qualquer conversa fiada com mensagens subliminares (ou escancaradas) favorecendo à cesárea. Entenda bem, eu não mudei de médico aos 48? do segundo tempo, eu simplesmente fiquei SEM médico, na expectativa de conseguir uma consulta com outro médico, que eu nem conhecia mas que parecia ser o único mais aberto ao parto normal.

Eu me preparei para parir sendo assistida pela minha equipe humanizada, agora se houvesse a
necessidade de uma transferência, aí não existia plano B,C ou D que desse conta. Estaria nas mãos do sistema e pronto.

Já estava com mais de quarenta semanas, e os pródromos já davam seus sinais há mais de duas
semanas.

À esta altura a família já falava em cesárea e coisas do tipo ?passar do tempo?, ?a primeira já foi
cesárea?, ?barriga está alta? ... não aguentava nem escutar essas coisas.

Consegui consulta no dia 05/01 às 10h com um médico que dizem que é o único que espera até 41
semanas e favorece o PN.

Minha querida parteira Giovana (enfermeira obstetra) me consultou naquela semana e propôs uma
seção de acupuntura (sendo ela acupunturista) e moxabustão para tentar induzir o início de trabalho de parto. Ela contou as luas e viu que a 10ª lua seria de domingo para segunda, lua crescente para cheia, era a lua do Miguel. Fizemos a acupuntura na sexta-feira dia 02/02 e no domingo dia 04 iniciou meu TP.

O GRANDE DIA
Era domingo de manhã e fui ao banheiro quando vi o tampão mucoso na calcinha. Mostrei pro
marido, comemoramos, nos beijamos, ficamos ansiosos. Tirei uma foto e mandei pra Giovana
(coisas que só aZíndias compreendem rs). Ela confirmou e comemorou. Aiaiaia que delícia. Estava começando! Em breve meu filho estaria no meu peito. Eu estava mais que preparada. Era tudo que eu queria.

Fomos almoçar na casa da minha sogra e não comentamos com ninguém. Da família, somente
meus pais sabiam da nossa decisão de PD (parto domiciliar). Eles não concordavam mas
respeitaram e aceitaram. Falei pro meu marido para irmos embora descansar durante a tarde, que a noite prometia rs.

Quando foi 17h minha bolsa vazou uma quantidade de líquido. Eu já conhecia aquela sensação.

Era bolsa rota assim como foi da Marina, só que dessa vez eu não sairia correndo para o hospital para ser cortada como se meu bebê fosse uma bomba relógio. Tinha feito um exame chamado
Streptococcus B para averiguar se existia um tipo de bactéria e tinha dado negativo, com isso a
preocupação de infecção com a bolsa rota estava amenizada.

Liguei pra Giovana e ela transmitia tudo que acontecia pra Suzana, minha outra parteira (enfermeira obstetra). A Gi veio em casa. Quando ela chegou falei que era a visita mais esperada dos últimos tempos, ?Seja bem vinda?. Ela avaliou o líquido e tudo estava ótimo. Nada de contrações.

Ela deixou o aparato todo dela em casa e foi embora. Ficamos em contato pelo whatsapp.

Mandei mensagem pra Aninha (amiga e, no caso, fotógrafa) e pra Vanessinha (amiga que ficaria
com a minha filha). Não queria avisar meus pais para não causar ansiedade. Eles só saberiam
quando o Miguel já tivesse nascido.

Por volta das 21h30 a Suzana veio até minha casa, examinou o líquido, a pressão arterial e
começou a monitorar as contrações que, nesse momento começaram se mostrar... Que sensação
boa diante das contrações, ainda leves. ?Eu tenho ocitocina!?. Eu e meu filho estamos em sintonia,
nossos corpos estão no compasso da mesma melodia, nossa última dança sendo um só corpo.

Não tinha como recusar a essa honra.
A Su foi embora e permanecemos em contato. Acendi as velas e liguei o som. Era uma pasta
evangélica que minha mãe gravou pra mim e a música dizia assim: ?Grandes coisas estão por vir /
Grandes coisas vão acontecer neste lugar?, e eu cantava esse refrão bem forte e emocionada, em
cima da minha bola, com aquela água morna do chuveiro batendo na lombar.

Por volta da 1h a Giovana, a Suzana e a Aninha chegaram pra ficar. Luz de vela aromática, som de fundo de Marisa Monte, DVD O renascimento do Parto, era o ambiente perfeito pra eu me entregar com vontade naquelas contrações que estavam cada vez mais fortes. Eu ficava em movimento constante. O corpo precisava dançar enquanto o marido fazia massagens, me segurando a cada contração, jogando água na minha lombar. Como eu o amei naqueles momentos! Acho que ele nunca irá saber como meu coração se encheu de amor por ele diante de tanto companheirismo, parceria, cumplicidade. Nós fizemos aquele filho juntos e estávamos parindo juntos, cheios de amor.

Dançamos debaixo do chuveiro a música que embalou nosso romance (Infinito Particular e Ainda
Bem ? Marisa Monte). Era muita ocitocina nos poros, no ar.Quantas coisas estavam escorrendo por aquele ralo. Tantas histórias, lutas, cicatrizes, dilemas estavam sendo paridos naquela noite. Naquelas contrações eu enfrentei todos os meus fantasmas e frustrações; meus sentimentos mal resolvidos. Despi-me de mim para despedir-me de mim. Eu estava renascendo para que meu filho nascesse.

...Chocolate, água de côco, massagens, gritos, gemidos, urros, sons que jamais conseguirei
reproduzir novamente. Conversava muito com meu bebê e falava que ele podia vir, que não tivesse medo, que nós estávamos prontos.

Amanheceu a segunda-feira (05/01). Por volta das 8h30 a Gi veio fazer o primeiro toque. Tinha
pedido a ela que só me tocasse conforme a necessidade e não por mera curiosidade minha, porque essa questão pode ser uma faca de dois gumes, tanto pode animar quanto desestimular. Ela perguntou: ?Quer saber??. Pensei comigo: ?E agora? Só falta ter passado essa noite interminável, com essas dores que parecem que vão me arrebentar o quadril pra ter dilatado pouco.?

Foi uma maratona, uma noite pra entrar pra história. Então respondi: ?Pode falar! Eu aguento e não vou desistir.? Ela disse: ?Está em 5 cm.?

Comemoramos, mas confesso que eu esperava mais, depois de 14 horas em TP. ?Tudo bem, é
assim mesmo, vamos continuar. Cada contração a mais é uma a menos no caminho que trará meu
filho pra mim. Pode vir que eu aguento.? Não posso lutar contra elas, tenho que me entregar,
transpô-las, trabalhar a favor. E era isso que eu fazia.

Não sei quanto tempo depois (já tinha perdido a noção do tempo) chegou a outra integrante da
equipe, a pediatra neonatal Dra. Andrea.

Nesse momento eu liguei para aquele que seria meu novo obstetra e desmarquei a consulta que era às 10h. Ai que alegria, não precisaria dele, meu filho estava chegando da maneira mais natural.
As meninas almoçaram e sempre me davam o que comer. Já não queria comer mais nada, mas
acabava comendo por saber que era necessário. Quando menos eu imaginava, elas chegavam com alguma coisa pra me alimentar e a Gi vinha com aquela moxa pra ativar meus pontos, além das homeopatias para dor, medo, ansiedade. Elas faziam todo o monitoramento com carinho, dedicação e delicadeza.

Então a Samara, minha doula chegou. Ela foi um presente, literalmente. Não cabia mais no meu
orçamento a presença de uma doula e ela me foi dada generosamente. Hoje sei o quão é
fundamental e indispensável a presença dessa profissional. Foi uma injeção de ânimo. Suas mãos
de doula, com seus óleos e braços fortes pra me segurar nas contrações foram incríveis.
Por volta das 15h a Gi fez o segundo toque e ... 8 lindos cm de colo dilatado. Comemorei porque
sabia que ele estava próximo. Meus pais chegaram em casa inesperadamente pois minha mãe estava inquieta e precisava me ver (sem saber que eu estava em TP). Será instinto materno? rs. Ela entrou em casa e deu de cara com a cena de parto. Ficou emocionada e falou: ?Filha!? Eu falei: ?Hoje eu não posso ser filha, tenho que ser mãe por isso preciso que você vá em paz e em oração pois seu neto está chegando!?

Meus pais acabaram de sair e já chegou uma tia do meu marido que, percebendo a situação já ficou indignada e sei lá pra quem ela falou. Só sei que depois chegou a minha sogra e a coisa ficou bem tumultuada. Meu marido ficou tentando contornar a situação como se fosse o guardião do meu parto, não deixou ninguém chegar até mim. Mais amor por ele!

Sinceramente, até hoje eu não sei o que nossas famílias pensam sobre tudo isso, mas
definitivamente é algo que não me importa. Já passei há tempos da fase de me preocupar com o
que as pessoas pensam. Isso não é problema meu, eu só preciso que me respeitem.
Desse momento em diante as dores eram quase insuportáveis, absurdamente fortes. Eu já sou uma pessoa sensível à dor, mas estava preparada pra ultrapassar meu limiar de dor. A motivação era maior, era transformadora. Era muita dor, inexplicável. Porém não tinha nada a ver com sofrimento.

Entrei na fase em que, simplesmente espera-se a dor, não há o que fazer. Contrações que duravam 1m e 40s. Então estava sentada na poltrona do meu quarto e percebi uma movimentação bem ao longe. As vozes vinham de longe.

Estavam enchendo a minha piscininha enquanto eu adentrava a tão famosa Partolândia. Ela existe
mesmo, eu estive lá rs. As próximas horas foram as mais difíceis. Eu não entrava no expulsivo. Não sentia os puxos e o bebê não descia. Estava exausta, há mais de 24 horas de TP, aquela fase ativa se prolongando cada vez mais e, mesmo assim eu arrumava forças pra continuar tentando.

Eu queria que acabasse mas não podia me entregar, então fazia tudo que as parteiras falavam: ?Caminha!? ?Agacha durante as contrações!? ?Vai pro chuveiro!? E depois que seguia as orientações eu perguntava: ?O que eu preciso fazer agora?? E elas sabiam que eu estava fazendo tudo que estava ao meu alcance. Se falassem pra mim: ?Deita, rola, come terra?... rs eu faria qualquer coisa. A Samara falava pra eu repetir que nem um mantra: ?Eu sei parir, meu corpo sabe parir!? E eu repetia até que, uma frase fora da minha racionalidade chamou a atenção. No meio desse mantra eu falei: ?ELE NÃO VAI SAIR! ESTÁ PRESO EM MIM? e sinalizei com as mãos onde ele estava preso (na minha pélvis).

Depois dessa frase instintiva continuei com meu mantra e procurando minhas melhores posições.
Eu, a Sá e a Aninha cantamos e dançamos Maria Maria (Elis Regina) que seria a música fundo dos meus slides comemorativos. Eu me agachei segurando num lençol pendurado e veio mais uma cachoeira de líquido. Foi lindo. Toda minha animalidade aflorada. Meu corpo trabalhando de forma magnífica. A natureza perfeita, divina. Embora as dores fossem fortíssimas e o cansaço fosse imenso, em nenhum momento eu pensei em desistir, no entanto, em muitos momentos pedi pra que Deus trouxesse logo meu filho para meus braços e me desse descanso.

Por volta das 18h30 a água da banheira já tinha esfriado, as contrações estavam ficando mais
espaçadas, nada de puxos, e a Gi fez o terceiro toque... 8 cm ainda. Parou de evoluir. Algum tempo depois ela chegou para a difícil conversa comigo e meu marido.

Poderia ter perdido as contrações por exaustão e stress (da família chegando em casa), poderia ser questão óssea... o fato é que tinha parado de evoluir e não havia mais o que ser feito. A partir dali os procedimentos teriam que ser hospitalares.

Como é difícil ver seu sonho desmoronar e ficar impotente diante disso.

Ok, então vamos pro hospital. A questão era: qual hospital? No do convênio, já iriam me esperar
com o bisturi na recepção e eu sei lá quem iria me atender, porque minha ex obstetra não perderia o tempo dela com uma rebelde teimando em parir.

Então decidi mesmo ir para o SUS, porque se fosse uma questão de perda de contrações, o sorinho iria fazer pular de 8 cm pra dilatação total num instante. A decisão foi tomada.

Nessa hora meus pais chegaram em casa com canja e salada de fruta para o pós parto e souberam da transferência. A tensão tomou conta do ar. Eu vi nos olhos do meu pai a luta para segurar o choro.

As meninas começaram a arrumar coisas para levar pro hospital; a famosa mala da maternidade, na qual as gestantes preparam semanas antes da DPP. A minha estava sendo feita naquele momento e não era por mim (isso não era algo que me preocupasse). No meio das contrações e frustrações, a única coisa que consegui lembrar foi dos documentos e carteira de pré-natal.

A querida Samara fez o chá da parteira mexicana famosa Naolí Vinaver, o que foi bombástico e fez
com que as contrações retomassem ritmo com menores intervalos. Então fomos para o hospital.
Entenda bem, foi mais uma decisão de empoderamento absoluto. Abandonar o plano de saúde que, de certa forma, era o ?conhecido? para enfrentar o então desconhecido.

Chegando lá, já entrei direto que nem nos filmes em que a mulher já chega parindo. Só não entrei de cadeiras de roda porque recusei. Aquele lugar estava lotado de grávidas, prova do poder da lua.
Todas gemendo baixinho por medo das histórias de agressão. Eu vocalizava minhas contrações tão alto que chamava atenção de todos.

Não consigo lembrar ao certo como foi feita a burocracia para internação, só lembro que a Samara
estava comigo segurando minhas contrações. Como é bom ter alguém pra abraçar durante aquela
dor avassaladora.

Eram 20h50. O primeiro médico avaliou com um toque (o primeiro de muitos), fez perguntas
relacionadas ao início do TP e eu menti sobre tudo. Não falei que estava num parto domiciliar para
evitar represálias devido à minha autonomia. Ele já encaminhou pra cesárea sem nenhuma
explicação, provavelmente pelo fato de ser um VBAC. Hahaha é rir pra não chorar. Claro que não
aceitei e já comecei causar naquele lugar.

Outro médico passou, me viu abraçando a Sa durante uma contração, cumprimentou-a pois ele a
conhecia e, não sei se eles conversaram sobre mim, só sei que esse médico tomou pra si o meu
caso. Ele era o médico que eu tinha desmarcado a consulta das 10h porque já estava em TP.
Lembra que eu tinha conseguido consulta com o único médico do convênio que esperava até as 41 semanas e favorecia o PN? Então, era o próprio que estava de plantão ali no SUS. Pra quem
acredita em coincidência, isto é um tremendo acaso. Eu acredito em providência Divina.

Não deixaram a Sa continuar comigo e eu fiquei sozinha na sala de pré parto.

O médico fez o toque e falou da bossa que o bebê apresentava, que estava bem significativa.

Perguntou se eu queria esperar mais um pouco pra ver se evoluía. Claro que sim!

A imagem que mais me chocava e aterrorizava era aquela maca de parto com perneiras. (a sala de parto e o centro cirúrgico são abertos, um espetáculo para quem está lá dentro). Só os familiares não podem participar. Um desrespeito total.

Eu ficava imaginando como conseguiria fazer força deitada com as pernas pra cima? Como as
mulheres conseguem colocar seus bebês pra fora naquela posição? Parir deitada é totalmente
desfavorável por ser contra a gravidade (falar o óbvio deveria ser falta de educação). Como eu
enfrentaria as contrações deitada? (se contração já é de arrebentar, deitada então, é a morte). Eles
vão cortar meu períneo tão rápido que não vai dar tempo nem de eu lamentar.

Veio uma enfermeira me acompanhar e... outro toque durante as contrações. Eu pedia a ela com
toda humildade para que não me fizesse a episiotomia, pois tinha feito exercícios para fortalecer
meu assoalho pélvico e estava preparada. Ela respondeu que não era radical e iria ver. Eu não
precisava de dúvidas, queria ter certeza que não me cortariam o períneo por mera rotina, sem meu
conhecimento / consentimento.

Lá na entrada, a Giovana conseguiu que meu marido entrasse para ficar comigo através de uma
conversa meio imperativa, citando a lei do acompanhante.

Meu marido já estava inseguro e desesperado. Não conseguia me convencer para ir pra uma
cesárea e terminar tudo aquilo. Ninguém conseguiria. Somente diante da confirmação de uma
distócia (dificuldade encontrada na evolução de um trabalho de parto, tornando uma função difícil,
impossível ou perigosa para mãe e bebê).

Passou pela minha cabeça que o sorinho poderia resolver a questão e chegar à dilatação total,
então comecei a cogitar a alternativa de sair dali e ir para o hospital do convênio, pois se ali eles
negassem a ocitocina, lá no convênio eles teriam que aplicar, porque lá eles teriam que me tratar
como cliente, ... Meu marido dizia: ?Lú, você não pode sair daqui. Não vão deixar?. Eu dizia ?Quero
ver quem vai me segurar aqui, eu saio de avental, assino o que for preciso, chamo a imprensa, a
polícia, o raio que o parta, mas ninguém vai cortar minha barriga? (e as contrações arrebentando de tão fortes). Empoderamento máximo, absoluto. Naquele momento eu me vi sozinha na minha luta.

Minha equipe humanizada estava lá fora e não podíamos nem nos comunicar por celular porque
tinha que ficar desligado para não dar interferência nos aparelhos do berçário, acho que na bomba
de oxigênio, sei lá qual era o motivo.

Meu marido já não sabia nem o que dizer; Era só Deus, eu e meu filho. Sabia que meu bebê estava
bem e que a frequência cardíaca estava de acordo, além disso, meu instinto dizia que ele estava
bem, ou seja, não estava teimando e colocando a vida do meu filho em risco. Se houvesse qualquer indício de alteração nos BCF eu seria a primeira a implorar por uma cesárea. Só que eu não podia boicotar o meu parto, não me perdoaria por isso.

A enfermeira voltou e fez outro toque. A dilatação tinha aumentado pra 9 cm mas o bebê não descia. Então ela falou que eu deveria ir me preparar, que seria cesárea.

?Não. Eu não vou, não vou, não vou. Quero falar com o médico!?. Empaquei mesmo. A pantera que
despertou das minhas entranhas estava parindo, acuada, com todos os instintos aguçados em
proteção do próprio corpo e da cria.

A enfermeira foi na porta do centro cirúrgico, no qual o médico estava realizando uma cesárea e
começou a reclamar pra ele que eu não aceitava a indicação pra cesárea e insistia em conversar
com ele. Que ela não sabia o que fazer comigo.

Eu estava na porta da sala de parto e ouvia o que ela falava, só não via o médico. Estava querendo invadir a cirurgia dele pra conversar, já que tinha virado bate papo mesmo.

Continuei no mesmo local esperando e a enfermeira sumiu, desistiu de mim kkk. Fui duas vezes ao banheiro sendo ajudada pelo meu marido e pensei seriamente, analisando a possibilidade de parir ali. Trancar a porta e só abrir quando o Miguel tivesse nascido. Seria melhor do que naquela maca ultrajante e correndo risco de subirem na minha barriga, fórceps, episio, sei lá mais o quê.

Finalmente o médico veio conversar comigo juntamente com a anestesista. Ele foi muito educado e
pontuou:

_?Você já está aqui há um tempo. Não sabemos há quanto tempo a bolsa estourou (ele não sabia
neh). Seu bebê está com uma bossa significativa. Ele não desce, provavelmente é uma questão
óssea. Vocês estão bem mas com o tempo ele entrará em sofrimento fetal, isto é fato!?

_?Se colocar o sorinho??

_?Não adianta. Não é problema de falta de contração ou dilatação, isso você está tendo normal.

_?Mas não há nada o que fazer, nenhum procedimento, nenhum medicamento?

_?Infelizmente não, então você decide: ou vamos operar agora ou vou atender mais onze grávidas
que estão esperando?.

Eu não sei ao certo o que senti, só sabia que era o fim definitivo daquele sonho lindo. Não senti
vontade de chorar, não era hora pra sentimentos e sim pra racionalidade e tomada de decisão, ou
melhor, aceitar a única opção, engolir o medo (o pavor) da cesárea e ter fé em Deus pois sabia que Ele estava à frente de tudo.

Fomos para o centro cirúrgico e, duas enfermeiras tentavam introduzir a sonda em mim, só que eu
estava em meio a uma contração, então era impossível relaxar e eu falava: ?Espera a contração
passar?. (Por que temos que implorar por algo tão evidente? Chega a ser cruel o descaso). A
anestesista falava assim: ?Nossa, não aguenta nem uma sonda. Como queria ter parto normal? Não ía conseguir nunca!?

Ela se apressou pra aplicar a anestesia antes da próxima contração e falou assim: ?Eu dei um
remedinho que vai ajudar você a não sentir dor?. Não entendi, pois a anestesia já é pra isso neh?,
mas enfim, era muita coisa pra processar.

Os médicos começaram a cirurgia e quando meu marido entrou chamaram-no pra ver. Ele se
recusou e preferiu ficar ao meu lado, do lado de cá do lençol.

A anestesista não parava de falar e resmungar várias coisas contra o parto humanizado etc etc. Ela falou pro meu marido que deu uma dose a mais de anestesia pra me acalmar, porque eu estava muito nervosa (aí dá pra entender o que era aquele remedinho). Eu só queria que ela calasse a boca pra eu ouvir o que os médicos estavam falando. Falei pro meu marido: ?Escuta o que eles estão falando?, e eles tiveram uma pequena dificuldade para tirar o bebê porque estava muito encaixado.

Quando conseguiram tirar, meu marido até ouviu um barulho de quando sai a pressão. Nisso eu ouvi um chorinho baixo e, de repente eu vi alguém saindo com meu filho da sala. Eu comecei a falar em pânico: ?Eu quero meu filho, traz ele pra mim, cadê meu filho?? A grossa da anestesista falou: ?Calma, já vai trazer seu cabeçudo!? (por causa da bossa).

Só Deus sabe a angústia que senti naquele momento. Nisso eu já estava passando mal com o efeito da anestesia tomando a minha garganta, não deixando que eu engolisse saliva e não conseguia respirar. Eu falei que estava passando mal, que não conseguia engolir. A anestesista foi mais uma vez cruel em dizer que aquilo era porque eu estava muito agitada e que não parava de falar. Falei pro meu marido ir atrás do bebê. Ele foi e acabou acompanhando os procedimentos e avaliação do pediatra em outra sala. Meu menino cabeludo nasceu com 3.955 kg e 48 cm. Me colocaram máscara para ajudar a respirar e eu fui perdendo os sentidos, achando que ía morrer e que algo tivesse acontecido com meu filho.

Ele nasceu às 23h, trinta horas depois do início do TP.

Durante toda a minha preparação para o parto domiciliar tão sonhado, o momento que eu mais
almejava era nosso primeiro contato fora do útero, nosso imprinting. Trazê-lo diretamente para meu
peito e acomodá-lo no meu ninho de amor. Sentir seu perfume divino de vérnix e líquido amniótico,
sua temperatura. Ouvir sua voz e analisar cada centímetro do seu corpo frágil, porém robusto.

Olhá-lo nos olhos e dizer: ?Oi. Eu sou sua mãe!? e ele estaria tão seguro e confiante que se acalmaria enquanto nosso cordão continuasse pulsando vida. Eu e ele totalmente mamíferos, únicos existentes no nosso universo. Num segundo meu corpo viraria dois. Gostaria de ver nascer a nossa placenta, material orgânico sagrado em sua função. O pai já estava encarregado de enterrá-la posteriormente. Não queria que ela fosse para o lixo devido a sua tamanha importância.
Conhecer um filho no primeiro instante fora do útero é algo indescritível, que não tem valia. Pois é,
tudo isso foi perdido. O sistema me roubou esse direito, deixou marcas profundas que não têm volta.

Retomei a consciência quase duas horas depois. Estava sozinha ainda no centro cirúrgico, com
aquele ar condicionado super frio, sem ninguém pra me ajudar e eu ainda não conseguia falar,
engolir, respirar direito...aquele pânico, sem saber o que tinha acontecido. Pensei: eu tenho que me
acalmar até que alguém passe por aqui. Logo veio uma enfermeira que começou a me ?desligar? de todos aqueles aparelhos e me deu notícias sobre meu bebê. Ele já seria trazido para mamar. E

Então o trouxeram e eu pude conhecê-lo mas ainda estava sob forte efeito da anestesia, então todo esse momento é bem confuso para lembrar. Sei que observei a bossa na cabecinha dele. Pensei em pedir pra enfermeira abrir a manta para que eu pudesse vê-lo inteiro, mas a sala estava muito fria.

Então ela o colocou no meu seio pra mamar e ele foi pegando com dificuldade. Ele já estava com
sono e tinha sido privado de mamar em sua primeira hora de vida, só porque uma médica resolveu
me dopar alegando estar me ajudando. Que boazinha!

Todos os procedimentos abusivos e desnecessários que compõem a praxe foram realizados nele.
Colírio nitrato de prata (nunca vou entender porque eles usam essa bomba ocular mesmo em bebês nascidos de cesárea), vitamina K, aspiração... enfim... protocolos e rotina, essa é a lei. Fora a questão de darem mais importância ao pediatra do que à própria mãe, pois ignoraram
completamente o nosso vínculo sagrado e o levaram para longe de mim. Nem ao menos uma foto foi tirada.

Tudo que planejei foi para que ele fosse recebido com amor, respeito e dignidade. Ao contrário
disso, ele foi bem recebido pelas mãos da violência que domina as práticas obstétricas hospitalares do nosso país. Mas se a ideia é sobreviver ao parto, então tá tudo bem neh?(Sqn).
Depois desse momento da mamada, levaram ele novamente e me transferiram que nem saco de
batatas para o quarto.

O coitado do meu marido estava em pânico querendo me ver, pois sua última lembrança de mim em consciência era que eu falava que estava passando mal, que não conseguia respirar e nisso já
apaguei. Sem contar que, quando ele retornou da sala do pediatra, para o centro cirúrgico, se
deparou com algo que ele disse ser ?um órgão? em cima de mim. Provavelmente deveria ser a nossa querida placenta que, nesse contexto, se tornou algo assustador pra ele. E ainda vem uma
enfermeira que disse assim: ?Ela vai ficar aqui por mais ou menos 1 hora e meia pra ver se ela volta e não terá hemorragia!?

Quanta sutileza para falar com o acompanhante! Existem maneiras delicadas para se passar a
mesma informação mas parece que a maioria faltou a essa aula.

Então meu marido viu que eu estava bem e pôde ir pra casa com mais tranquilidade. Minha mãe
passou a noite comigo mas só pôde ficar até a manhã seguinte, até o meu banho. Depois eu tive
que ficar sozinha para cuidar do meu filho, estando com a barriga cortada.

Não existe cesariana humanizada. O que deveria existir é um atendimento / assistência humanizada às pessoas (mãe-bebê e familiares) que necessitam dessa cirurgia, envolvidas nesse processo.

Ele nasceu 23h do dia 05/01 depois de 30 horas de trabalho de parto, com 9 cm de colo dilatado,
contrações contínuas e ritmadas, com diagnóstico de Desproporção cefalopelvica.

No dia 06/01 foi aprovada e divulgada pela ANS uma Resolução Normativa que obriga médicos de
todo país a preencherem um partograma, documento em que são registradas todas as etapas do
trabalho de parto de uma gestante. Essa medida tem o objetivo de inibir a cesárea desnecessária.
Também passa a ser direito da gestante ter acesso aos percentuais de tipos de parto de cada
médico assim como dos serviços hospitalares que ela pretende utilizar.

Vivaaaaa! Essa notícia me foi dada durante a minha hora de visitas. Veio através da minha querida
Giovana e eu vibrei por dentro. Estamos rastejando a passos de lesmas, mas há esperança.
Pra mim, essa lei tem um nome: LEI DO MIGUEL e ela há de prover algumas mudanças.
Tivemos alta no dia 07/01 por volta do meio dia.

Segundo a OMS, 15% dos partos precisarão de uma cesariana. Eu entrei nessa estatística e dentre os motivos que levam à transferência do parto domiciliar para o hospital, o meu faz parte dos 5% que necessitam, por Posição ou Apresentação desfavorável. Como é frustrante fazer parte desses números.

A delicadeza e sensibilidade da minha querida equipe de parto foi além e elas propuseram finalizar o meu parto domiciliar, pelo menos simbolicamente. Acharam importante pra mim e pro meu marido
visualizar o Miguel sendo parido em casa. Então, 17 dias depois do nascimento dele, elas foram até minha casa, usando as mesmas roupas que estava no dia do TP e foram conduzindo um momento de parto imaginário. Eu me entreguei àquelas sensações como se estivesse vivendo o expulsivo.

Então colocaram o Miguel sem roupa sobre o meu peito e foi um momento muito agradável de ser
vivido. Tiramos as famosas fotos comemorativas, brindando à vida.

Ainda não sei quais são as lições que a vida quer me dar, o que há de ser transformado em mim e
nos outros que têm contato com essa minha vivência. Mas o que sei é que eu vivi intensamente
cada segundo do meu TP, assim como todos os meses de preparação para aquele grande
momento. Sou imensamente feliz por ter acordado a pantera que há em mim, racionalmente
ultrapassando meus limites psicológicos, e instintivamente ultrapassando meus limites físicos. Por
ver nossos corpos (meu e do Miguel) trabalhando em perfeita sintonia e conexão, abastecidos por
hormônios do amor, adentrando dimensões que somente essa experiência divina proporciona.

Mesmo não vivenciando o expulsivo, posso garantir que atravessei um portal e cumpri a minha
jornada sem, nem por um momento, pensar em desistir. Protagonizei o meu parto até onde Deus
permitiu.

Não parir dói, é triste, mas não é uma tragédia. No entanto, eu preciso ser respeitada no meu luto do parto sonhado. Entenda que não sou ingrata à cesárea, sendo que foi vital para mim e meu bebê, mas existem muitos sentimentos envolvidos nesse processo. E nunca fale a uma mulher que não conseguiu parir que ?O que importa é que seu filho está bem e deu tudo certo?. Se eu não soubesse que essa frase provém de uma atitude inocente, numa tentativa de conforto, poderia até entender como uma ofensa. Como se eu tivesse sido imprudente e acabei colocando meu filho em risco com minhas decisões, mas que, no fim, deu tudo certo. As questões não são simplistas assim.

Posso dizer que a primeira parte do meu parto foi da maneira que sonhei. A minha equipe foi
fantástica e, como é bom ter vivenciado tudo aquilo no santuário do meu lar. Como é bom curtir o
passo a passo do TP, desde a saída do tampão, da ruptura da bolsa. Como foi gratificante passar
por tudo isso sem ter que correr para o hospital como se eu fosse uma bomba prestes a explodir.

Foi alegre, foi íntimo, foi infinito, sob os olhares de pessoas que eu escolhi para viver aquilo comigo.

Protagonismo é segurança; segurança é paz.

Mesmo a minha cesárea tendo sido necessária eu busquei por respostas e, mesmo não sabendo
quais eram as perguntas, eu busquei peças que faltavam no meu quebra-cabeça. Minhas peças que não se encaixavam eram sobre a tal de Desproporção cefalopelvica. Ouvi muito isso: ?Ah, mas ele é grandão. Não ía ser normal mesmo!? e eu pensava, e aquilo não entrava na minha cabeça. Como meu bebê é grande demais pra mim, ou eu sou pequena demais pra ele, ou os dois?! Não tá certo isso. Deus é perfeito. A natureza é perfeita. Como meu corpo gerou um bebê que não pode ser parido?

Por ironia, eu sou filha nascida de cesariana eletiva, na década de 80, na qual os cesaristas estavam começando a ganhar força. Tenho um irmão dois anos mais velho e no parto dele, minha mãe tentou exaustivamente parir mas acabou sendo cirúrgico por Desproporção cefalopelvica, por isso que ela agendou meu nascimento.

Então, essa palavra faz parte da minha vida desde sempre, mas eu sempre pensei que o meu irmão era grande demais para a minha mãe. E, analisando hoje sobre esse assunto, percebo que isso é algo que sempre incomodou ele, principalmente quando meu pai brincava que ele era ?cabeçudo?.

Qual filho gosta de não ser compatível à sua mãe; de tê-la feito sofrer horrores pra ele poder
nascer?! É algo anômalo, e gera uma culpa emocional inconsciente.

Nessa minha busca eu encontrei a peça que faltava. Desproporção cefalopelvica não é tamanho, é
movimentação, posição, apresentação desfavorável. É quando o bebê adentra o canal pélvico de
maneira inadequada.

Pode parecer bobagens interpretativas, mas pra mim fez muita diferença e sei que fará para o
emocional do meu filho também.

Somos perfeitos um para o outro, não há nenhuma desproporção entre nós. Tudo não passou de
uma movimentação desfavorável. Deveriam mudar esse nome DCP para PAD (posição ou
apresentação desfavorável) e banir de vez esse estigma da desproporção.

No momento em que termino esse relato, os sentimentos já estão mais acomodados, porém, aquele bebê que não nasceu na piscininha ainda vive dentro de mim e espera para ser parido; para poder me atravessar. Estamos conectados. Conversamos e vivemos nossa dor calada. Muitas vezes eu choro tendo só ele e Deus de testemunha. Às vezes ele chora, outras berra, outras cala e assim continuamos até chegar o dia em que a voz dele e sua movimentação inquieta irá calar / cessar. Ou Pra mim, parto é poesia concreta. O meu não teve o fim que sonhei, desejei, planejei.

Essa poesia não foi escrita por mim, mas é a minha poesia, a única que vivi. Inundada de sangue, suor e lágrimas. Poesia da vida, forte como ela é.

(?Quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida.?)

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